segunda-feira, 24 de setembro de 2012

Ma Petite

Para ler ao som de Carla Bruni

                Pálida ela se fita no espelho, passando suavemente as costas da mão em seu rosto, Marina. Em uma procura desesperada, por traços e linhas de expressão de parentes mortos ou vivos. Possuía os mesmos tristes olhos, cor de avelã, da mãe. Ao menos era o que lhe diziam. Não a conhecera. A mãe fugira: em busca de um grande coração partido.
                Era dançarina. Tinha 16. Virgem de signo e corpo. Herdara da mãe não só os olhos, como também uma beleza única.
                Minha pequena, assim era chamada por todos na companhia de dança. Falava pouco, mas tinha graça. Despertava em todos por quem passasse uma natureza adormecida pela moral. Transpirava paixão.
                Aos 21 fez um voto de silêncio – se comunicaria tão somente através do corpo e dança - o motivo só se soube mais tarde.
                Era a melhor, ninguém mais tinha movimentos tão precisos quanto os dela. A cada gesto, cada curva, seu copo gritava. Tinha alma.
                À convite de uma companhia de dança, mudou-se para Paris. Ao pisar pela primeira vez na cidade, sentiu-se em casa como nunca antes. Era como se toda sua vida se resumisse àquele momento, ela nascera para estar ali.
                Ajeitou-se num pequeno cortiço no centro da cidade. As viagens eram frequentes. Logo ela estava dançando por toda a Europa.
                Abandonando completamente a figura de antes, Marina deixava até três amantes em cada cidade por onde passava. Nunca aprendera um idioma sequer, mantendo seu voto de silêncio.
                Em uma viagem á Cannes sem a companhia se perdeu pela cidade, até que foi dar em uma pequena viela amontoada de cortiços. Roupas na corda, crianças e cachorros por toda parte. E no ar um aroma miticamente conhecido pelos sentidos de Marina.
                Foi seguindo aquele aroma, por um estreito corredor até chegar a uma porta azul. Como quem já conhece o caminho entrou.
                Lá dentro uma pobre senhora mofina, que nada tinha de familiar. Exceto grandes olhos cor de avelã.
                Ao ver Marina a senhora começou a cantar:
             
                “Et jusqu'au matin. L'étoile d'argent. Sur le blanc satin. De ton front changeant. Dira bien mieux que moi-même. A quel point je t'aime.”
                Um vento invadiu a sala violentamente, nada ficou no lugar, a não ser as duas. Duas  reconhecendo-se uma na outra, como fossem a mesma. Marina quis chorar, quis gritar, fugir. O reencontro pôs fim a seu pacto, pôs-se vista naqueles olhos, enxergou-se de fora pra dentro e pode enfim dizer:
                -Sabe mãe queria que o mundo fosse mistério, que me pusesse para dormir com as canções sem sentido e que a vontade de acordar fosse plena. Que nunca precisasse dizer te amo, porque amo é só uma palavrazinha à toa que não vale o sentimento das gentes.
                Sem dizer mais nada deitou-se no colo de sua mãe e deixou-se acarinhar, e enquanto as mãos da senhora se perdiam nos grandes cabelos castanho de Marina, continuou a cantar:

 “Et jusqu'au matin. L'étoile d'argent. Sur le blanc satin. De ton front changeant. Dira bien mieux que moi-même. A quel point je t'aime...”

Nathália Loiola

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