Pálida
ela se fita no espelho, passando suavemente as costas da mão em seu rosto,
Marina. Em uma procura desesperada, por traços e linhas de expressão de
parentes mortos ou vivos. Possuía os mesmos tristes olhos, cor de avelã, da
mãe. Ao menos era o que lhe diziam. Não a conhecera. A mãe fugira: em busca de
um grande coração partido.
Era
dançarina. Tinha 16. Virgem de signo e corpo. Herdara da mãe não só os olhos,
como também uma beleza única.
Minha
pequena, assim era chamada por todos na companhia de dança. Falava pouco, mas
tinha graça. Despertava em todos por quem passasse uma natureza adormecida pela
moral. Transpirava paixão.
Aos 21
fez um voto de silêncio – se comunicaria tão somente através do corpo e dança -
o motivo só se soube mais tarde.
Era a
melhor, ninguém mais tinha movimentos tão precisos quanto os dela. A cada
gesto, cada curva, seu copo gritava. Tinha alma.
À convite
de uma companhia de dança, mudou-se para Paris. Ao pisar pela primeira vez na
cidade, sentiu-se em casa como nunca antes. Era como se toda sua vida se
resumisse àquele momento, ela nascera para estar ali.
Ajeitou-se num pequeno cortiço no centro da cidade. As viagens eram
frequentes. Logo ela estava dançando por toda a Europa.
Abandonando completamente a figura de antes, Marina deixava até três amantes
em cada cidade por onde passava. Nunca aprendera um idioma sequer, mantendo seu
voto de silêncio.
Em uma
viagem á Cannes sem a companhia se perdeu pela cidade, até que foi dar em uma
pequena viela amontoada de cortiços. Roupas na corda, crianças e cachorros por
toda parte. E no ar um aroma miticamente conhecido pelos sentidos de Marina.
Foi seguindo
aquele aroma, por um estreito corredor até chegar a uma porta azul. Como quem já conhece o caminho
entrou.
Lá dentro
uma pobre senhora mofina, que nada tinha de familiar. Exceto grandes olhos cor
de avelã.
Ao ver Marina a senhora começou a
cantar:
“Et jusqu'au matin. L'étoile d'argent. Sur
le blanc satin. De ton front changeant. Dira bien mieux que moi-même. A quel
point je t'aime.”
Um vento invadiu a sala
violentamente, nada ficou no lugar, a não ser as duas. Duas reconhecendo-se
uma na outra, como fossem a mesma. Marina quis chorar, quis gritar, fugir. O reencontro pôs fim a seu pacto, pôs-se vista naqueles olhos, enxergou-se de fora pra dentro e pode enfim dizer:
-Sabe
mãe queria que o mundo fosse mistério, que me pusesse para dormir com as
canções sem sentido e que a vontade de acordar fosse plena. Que nunca precisasse
dizer te amo, porque amo é só uma palavrazinha à toa que não vale o sentimento
das gentes.
Sem
dizer mais nada deitou-se no colo de sua mãe e deixou-se acarinhar, e enquanto
as mãos da senhora se perdiam nos grandes cabelos castanho de Marina, continuou
a cantar:
“Et jusqu'au matin. L'étoile d'argent. Sur le
blanc satin. De ton front changeant. Dira bien mieux que moi-même. A quel point
je t'aime...”
Nathália Loiola
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