segunda-feira, 17 de setembro de 2012

Anima




Para ler ao som de Chico Buarque:

            A meia luz prostrada em uma poltrona azul - de renda francesa e olhar autômato- Pinã se despede de seu ultimo cliente da noite.
            Não conhecera outra vida, se bem que duvido da existência desse mundo polido e correto de que tanto falam. Ou, de fato não existe mundo tal. Ou, a população desse estranho mundo ainda não descobriu o certo orifício. Somos, ou, não somos todos putas e bêbados, afinal?
            Pinã carregava com sigo uma dor conhecida. Dessas que só se amenizam vez ou outra com os poucos surtos de vida valida que esse tedioso mundo nos oferece.
            Ruiva cheirava a almíscar e lavanda, como me disse um amigo uma vez, possuía ela os cabelos desgrenhados de maneira a ter alma própria.
            Sempre acreditei na natureza selvagem dos cabelos das mulheres. São eles que dão a feminilidade, motivo de temor e perdição ao longo do séculos. Foram os loiros cabelos de Helena que puseram Troia a baixo, assim como foram os negros cabelos de Penélope que guiaram Ulysses até Íthaca.
            Além da melancolia constante a vida não se fazia tão dura. Era natural, a ignorância é a maior felicidade que se pode alcançar. Ninguém sofre pelo que não conhece.
           O que Pinã tinha era um incomodo um desconforto. Sempre que algo extraordinário acontecia, era como se um sentimento de culpa tomasse conta de sua alma, mas o sofrimento para ela tinha graça, quiçá prazer.
           Treva
           Vladimir Korolenko era seu nome. Seco e árido se tornou um dos clientes mais assíduos e excêntricos de Pinã.
           Era Russo, passara muitos anos exilado na Sibéria. Tinha fome. Velho, grisalho e de uma calvíce assombrosa. Não era mal. Estava cansado. Nunca fugira a possibilidade de um soco. Não batia em mulheres, mas agredira duas vezes a falecida esposa. Nenhum grande herói. Era escritor e por ofício entendia bem, das dores sentidas por Pinã.
           Nos primeiros encontros ele não dizia nada.  Tinha fome. Com passar do tempo seu desejo foi se apaziguando, foi então que levou o primeiro livro.
           Pinã não era inteligente, ela seria o que chamamos de safa. Já havia lido uma novela ou outra, nada muito intelectual. No começo estranhou. Ele lhe pedia que lesse alguns capítulos em voz alta. Conforme passava o tempo ele trazia mais livros, até que chegaram a um ponto em que só liam, mais nada.
           Quanto mais lia, mas consciência Pinã tomava do mundo. Aquilo crescia como um germe, quanto mais ela lia, mais queria saber. Sua melancolia natural crescia ao mesmo passo que sua consciência.
           Deixou de atender os clientes. Não suportava mais que a tocassem. Seu corpo havia se tornado coisa sagrada. Quem sabe até não se redimia e virava santa, como as das imagens que vira?
           Estava enlouquecendo.
           Dai veio a noticia da morte de Vladimir, Pinã não derramou lagrima, dizia, prolixa, acreditar na eternidade do ser e de sua consciência - Uma herança coletiva dizia- Queria chorar. Não chorou.
          O dinheiro passou a ser escasso, as roupas surradas e velhas.
          Os cabelos ainda eram os mesmos.
          Vendera as joias, os vestidos tudo. Só não os livros e o corpo, que se tornaram coisa sagrada. Não restando mais o que vender, decidiu.
          Venderia os cabelos - Muitas mulheres vitimas da repressão tinham a cabeça talhada pra que não crescessem mais os cabelos, tornando-os, portanto coisa valiosa.
         Cada mecha de cabelo arrancado pela navalha era como a perda de um membro vital. Como perder um a um, o fígado, o útero, um rim... até resultar na perda da alma.
          Não existe nudez maior do que a de um corpo sem alma. Foi só então que ela entendeu.
          E logo ao dobrar a esquina, morreu devastada de ternura.

Nathália Loiola



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