Para ler ao som de Chico Buarque:
A meia luz
prostrada em uma poltrona azul - de renda francesa e olhar autômato- Pinã se
despede de seu ultimo cliente da noite.
Não
conhecera outra vida, se bem que duvido da existência desse mundo polido e
correto de que tanto falam. Ou, de fato não existe mundo tal. Ou, a população
desse estranho mundo ainda não descobriu o certo orifício. Somos, ou, não somos
todos putas e bêbados, afinal?
Pinã
carregava com sigo uma dor conhecida. Dessas que só se amenizam vez ou outra
com os poucos surtos de vida valida que esse tedioso mundo nos oferece.
Ruiva
cheirava a almíscar e lavanda, como me disse um amigo uma vez, possuía ela os
cabelos desgrenhados de maneira a ter alma própria.
Sempre
acreditei na natureza selvagem dos cabelos das mulheres. São eles que dão a
feminilidade, motivo de temor e perdição ao longo do séculos. Foram os loiros
cabelos de Helena que puseram Troia a baixo, assim como foram os negros cabelos
de Penélope que guiaram Ulysses até Íthaca.
Além da
melancolia constante a vida não se fazia tão dura. Era natural, a ignorância é
a maior felicidade que se pode alcançar. Ninguém sofre pelo que não conhece.
O que Pinã
tinha era um incomodo um desconforto. Sempre que algo extraordinário acontecia,
era como se um sentimento de culpa tomasse conta de sua alma, mas o sofrimento
para ela tinha graça, quiçá prazer.
Treva
Vladimir
Korolenko era seu nome. Seco e árido se tornou um dos clientes mais assíduos e
excêntricos de Pinã.
Era Russo,
passara muitos anos exilado na Sibéria. Tinha fome. Velho, grisalho e de uma
calvíce assombrosa. Não era mal. Estava cansado. Nunca fugira a possibilidade
de um soco. Não batia em mulheres, mas agredira duas vezes a falecida esposa.
Nenhum grande herói. Era escritor e por ofício entendia bem, das dores sentidas
por Pinã.
Nos
primeiros encontros ele não dizia nada. Tinha
fome. Com passar do tempo seu desejo foi se apaziguando, foi então que levou o
primeiro livro.
Pinã não
era inteligente, ela seria o que chamamos de safa. Já havia lido uma novela ou
outra, nada muito intelectual. No começo estranhou. Ele lhe pedia que lesse
alguns capítulos em voz alta. Conforme passava o tempo ele trazia mais livros,
até que chegaram a um ponto em que só liam, mais nada.
Quanto mais
lia, mas consciência Pinã tomava do mundo. Aquilo crescia como um germe, quanto
mais ela lia, mais queria saber. Sua melancolia natural crescia ao mesmo passo
que sua consciência.
Deixou de
atender os clientes. Não suportava mais que a tocassem. Seu corpo havia se
tornado coisa sagrada. Quem sabe até não se redimia e virava santa, como as das
imagens que vira?
Estava
enlouquecendo.
Dai veio a
noticia da morte de Vladimir, Pinã não derramou lagrima, dizia, prolixa, acreditar
na eternidade do ser e de sua consciência - Uma herança coletiva dizia- Queria
chorar. Não chorou.
O dinheiro
passou a ser escasso, as roupas surradas e velhas.
Os cabelos
ainda eram os mesmos.
Vendera as
joias, os vestidos tudo. Só não os livros e o corpo, que se tornaram coisa
sagrada. Não restando mais o que vender, decidiu.
Venderia os
cabelos - Muitas mulheres vitimas da repressão tinham a cabeça talhada pra que
não crescessem mais os cabelos, tornando-os, portanto coisa valiosa.
Cada mecha de cabelo arrancado pela
navalha era como a perda de um membro vital. Como perder um a um, o fígado, o
útero, um rim... até resultar na perda da alma.
Não existe
nudez maior do que a de um corpo sem alma. Foi só então que ela entendeu.
E logo ao
dobrar a esquina, morreu devastada de ternura.
Nathália Loiola
que lindo.. adorei, adorei..
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